Primeiro, eles precisam ser eleitos, e a velha guarda dificulta o processo.

 

Com o seu boné pra trás e barba por fazer, o estilo de Daniel José Oliveira, 29, (foto) é pouco típico para um político brasileiro. Menos típica ainda é a sua história: um de 11 irmãos, ele foi criado em uma cidade pequena por uma diarista e um contínuo de uma agência bancária. Após ganhar uma bolsa de estudos para uma escola católica, ele estudou economia em uma faculdade renomada em São Paulo.

 

Sua formação o levou a um emprego no J.P. Morgan, a uma bolsa de estudos para a Universidade de Yale e uma proposta de trabalho para uma firma de investimentos nos EUA.

 

Mas em 2015, com a economia brasileira quebrando e a política atolada em escândalos, ele voltou para casa. Inspirado por En Marche!, o partido liberal francês que impulsionou Emmanuel Macron à presidência, ele tem esperança de ser eleito para deputado federal por São Paulo nas eleições de outubro.

 

Até recentemente, política era algo que não envolvia a sua geração. A idade média dos deputados eleitos em 2014 era de 50 anos, 19 anos acima da média nacional. Os veteranos da política brasileira estão desacreditados: após mais de três anos da Operação Lava Jato, 40% dos membros do congresso estão sob investigação. Políticos não são bem-vistos. Apenas 1 em 20 eleitores admira políticos; somente 3% aprovam os Presidente Michel Temer.

 

Há décadas, a confiança no congresso vem declinando. Em 2010, Tiririca, um palhaço profissional, foi eleito para o congresso nacional com o slogan: “Pior do que tá não fica”. E ficou. Em 6 de dezembro, ele anunciou ao seus colegas parlamentares que ele não buscaria a reeleição em 2018. “São 513 deputados e só oito estão entre os mais assíduos. Eu sou um dos oito. Um palhaço de circo de profissão”, lamenta Tiririca.

 

Os jovens brasileiros estão fartos. “Há quatro anos, uma pessoa como eu na corrida eleitoral não faria o menor sentido”, disse Daniel. Mas renovar o Congresso brasileiro não será fácil. Candidatos independentes são banidos e partidos não recebem novatos. Em alguns estados, os cargos ficam nas mãos de famílias conhecidas.

 

Retirá-los pode ficar ainda mais difícil. Em 2015, após uma série de escândalos, o Supremo Tribunal Federal proibiu contribuições corporativas a campanhas eleitorais. Em outubro, o congresso criou o “fundo público de financiamento de campanhas” para as eleições do ano que vem. Mas o fundo, e tempo de propaganda na mídia, serão alocados proporcionalmente com a representatividade atual de cada partido. Isso frustra novatos. “O Congresso é como um câncer”, diz Daniel. “Não está trabalhando no interesse do corpo e está se auto-defendendo para sobreviver”.

 

Pessoas estão tentando encontrar a cura. Daniel se inscreveu para o RenovaBR, um programa que apoia jovens brasileiros que querem se candidatar para o congresso. Financiado por empreendedores, o programa oferece 150 cursos sobre as instituições brasileiras e consultoria sobre campanha eleitoral e política. Há centenas de inscritos para o programa que dura seis meses, com início em janeiro. Bolsistas do RenovaBR ganharão um estipêndio de até R$12.000,00 por mês.

 

Eles serão selecionados através de provas escritas e entrevistas. Eles podem fazer parte de qualquer partido, mas não podem ter pontos-de-vistas extremistas. Em troca, os bolsistas se comprometem a completar seus mandatos, justificar suas decisões de votos aos seus constituintes e evitar contratar familiares como membros da equipe. Eduardo Mufarej, idealizador do projeto, espera ver pelo menos 45 bolsistas eleitos.

 

Outros grupos estão trabalhando para tornar o congresso mais representativo. A Bancada Ativista é um grupo com tendências de esquerda que foi formada para disputar as eleições para a câmara de vereadores na cidade de São Paulo em 2016. Ao invés de criar um partido, o grupo selecionou oito candidatos de dois partidos já estabelecidos.

 

Apenas um era homem heterosexual. “Por definição, uma mulher negra é mais representativa do que alguém branco formado em Harvard”, diz Caio Tendolini, 33, membro da bancada. O grupo organizou eventos no formato de “speed dating” [apelidado “flertaço”] para que os candidatos pudessem conhecer eleitores, e ofereceu treinamento sobre redes sociais e networking para políticas públicas. Começou a funcionar: os candidatos atraíram um total de 75.000 votos e um foi eleito. A bancada vai escalar sua operação para o próximo outubro.

 

O Agora! foi fundado em 2016 para atrair para a política jovens brasileiros que demonstram traços de lideranças em outras áreas. Até o momento, o grupo tem focado em desenvolver ideias para políticas. “Aqui políticos se preocupam em ser eleitos e depois se preocupam sobre suas agendas...deveria ser o contrário”, diz Marco Aurélio Marrafon, um dos 150 membros do grupo. O Agora! possui grupos de trabalho sobre tudo, desde de saúde até homícidio. Inicialmente, não tinha planos de entrar na eleição, mas “as coisas estão saindo do controle”, diz Ilona Szabó, co-fundadora do movimento.

 

No ano que vem, o Agora! tem planos de lançar 30 candidatos para o congresso persuadindo dois partidos, o Partido Popular Socialista e a Rede, a serem veículos. “Queremos ser uma nova força política”, diz Szabó.

 

As eleições de outubro são talvez as mais importantes desde que a democracia foi restaurada em 1985, após 20 anos de ditadura. Elas também são imprevisíveis. Mais do que nunca, brasileiros se identificam cada vez menos com o modelo esquerda-direita. A maioria quer tentar algo novo. Isso pode favorecer extremistas: Jair Bolsonaro, o deputado federal que faz comentários ásperos sobre gays e mulheres, está em segundo lugar nas pesquisas eleitorais para presidente. Mas o cenário também pode ajudar novatos de centro. Quatro em cinco brasileiros dizem que querem que “cidadãos comuns” sejam candidatos para o congresso no ano que vem.

 

Os seus esforços podem fracassar. Novos candidatos se preocupam com o aspecto financeiro e alguns já estão operando abaixo do esperado. Daniel costumava ajudar seus pais a pagar as contas. Desde que decidiu se candidatar, ele teve que parar. Com doações corporativas banidas, os candidatos dependem de contribuições individuais, e ninguém sabe quão generosos os brasileiros serão. A falta de tempo da mídia também terá um impacto negativo.

 

“O próximo ano talvez não seja o divisor de águas”, diz Daniel. “Mas temos que abrir um caminho. Se não, não haverá esperança de renovação em 2022”. A renovação política talvez não ocorra da noite para o dia. Mas os jovens ativistas brasileiros iniciaram o processo.

 

Tradução por Tatiana Almeida

 

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