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Brasil sem aulas: qual o impacto na renda futura dos alunos?

29 de setembro de 2020 admin 0 Comments

Há mais de cinco meses, estudantes de todo o Brasil estão sem aulas. A insistência de prefeitos e governadores em manter as escolas fechadas beira o irracional, do ponto de vista científico. Por isso, muitos impactos negativos dessa proibição estão sendo discutidos. Mesmo assim, deixa-se de fora os efeitos disso na renda futura dos alunos, que é significativo.

Em relação aos efeitos imediatos, mostrei nesse artigo que o fechamento dos colégios está relacionado a um aumento das denúncias de violência e de problemas psiquiátricos de maneira geral.

Além disso, isso também estimula o abandono escolar, já que as crianças precisam ajudar suas famílias a superar a crise. E até a nutrição delas é afetada. Afinal, até dois terços dos alunos têm na merenda uma fonte de alimentação, segundo um artigo do The New England Journal of Medicine.

Efeitos no longo prazo: a influência na renda futura dos alunos

O artigo Economic Impacts of Learning Losses, da OCDE, revela que a correlação entre anos de estudo e renda é uma das descobertas mais robustas de todo o programa empírico da economia. Sua estimativa é de que a perda de um terço do ano letivo impacta na renda futura das crianças entre 2,5% e 4%. Em muitos países, como é o caso dos Estados Unidos, um ano perdido representa quase 10% de renda futura dos alunos. 

Mas, lembremos, no Brasil estamos há mais de 200 dias assim! Tudo indica que as estatísticas aqui infelizmente serão ainda piores. E adiciona-se a isso que, para a maioria dos alunos da rede pública, não foi ofertada qualquer modalidade de ensino remoto. Aqueles sem acesso à internet foram usados como desculpa, mas sequer foi cogitado um programa de auxílio digital.

Em termos absolutos, um relatório do Banco Mundial estimou que, pelos cinco meses sem aulas, essa geração está condenada a perder 10 trilhões de dólares em renda ao longo da sua vida. Isso representa 16% de todo valor investido pelos governos nela.

Esse tempo também corresponde a uma diminuição de 0,6 anos de escolaridade, se ajustarmos pela qualidade do serviço. Isso leva o tempo efetivo de estudo médio de 7,9 anos para 7,3. Em crianças no início do processo educacional, até a alfabetização pode ser comprometida. Isto por sua vez, atrasa todo o seu desenvolvimento acadêmico.

O impacto na renda futura: três estudos de caso na literatura

A fim de olharmos para além das projeções mencionadas, podemos voltar-nos para o passado. Um estudo da National Bureau of Economic Research analisou quais os efeitos a epidemia da Gripe Espanhola teve em São Paulo, em 1918. Ele mostrou que a geração nascida naquele período teve piora na formação do seu capital humano; representada por declínios nos índices de alfabetização e de produtividade, principalmente no primeiro setor. Essas deficiências repercutiram por até 20 anos após a epidemia!

Felizmente não houveram muitas pandemias para que fizéssemos análises desse tipo. Entretanto, podemos investigar outros períodos em que estudantes foram impedidos de estudar. Trago aqui três cases que servem de exemplo: guerras, desastres naturais e greves no setor.

O estudo The Long-run Educational Cost of World War II analisou o impacto do cancelamento das aulas devido à Segunda Guerra Mundial. Ele comparou pessoas da Áustria e da Alemanha, protagonistas da guerra, com outras da Suíça e Suécia, que não participaram. Os pesquisadores descobriram que, até 40 anos depois, os salários de austríacos e alemães afetados ainda eram menores em decorrência disso.

O segundo, de 2005, mostrou que, devido ao furacão Katrina, que obrigou a suspensão das aulas por dois meses, os estudantes afetados sofreram um atraso educacional que demorou dois anos para ser compensado.

Por fim, o terceiro exemplo é um com o qual os brasileiros em idade escolar podem se identificar. Ele analisou 1.500 greves de professores na Argentina entre 1983 e 2014. Este cenário se converteu em 372 dias letivos perdidos na média.

O Brasil também passa constantemente por períodos de greve, especialmente o que vivemos no governo Temer. Portanto, podemos tirar uma lição dupla.

O artigo destaca os efeitos sentidos por esses indivíduos entre seus 30 e 40 anos. Ou seja, mais de 20 anos após o período de educação primária. Descobriu-se que o salário de homens e mulheres se reduzia em 3,2% e 1,9%, respectivamente. Estimaram também que isso representa 2,34 bilhões de dólares. Como causa disso, está o desemprego e a ocupação de cargos menos prestigiados.

Manter os brasileiros sem aulas é uma medida política

Não obstante, toda a evidência para os efeitos ruins — tanto imediatos, quanto no longo prazo —, prefeitos e governadores insistem em manter a situação como está. Isso é por pura conveniência política. Afinal, segundo o Ibope, 72% da população aprova essas medidas e sindicatos pressionam contra a volta às aulas.

A justificativa é que as crianças são transmissores do vírus, ainda que não sofram seus sintomas. Mas, como mostrei neste artigo, a literatura científica mais recente prova que elas têm uma transmissibilidade muito baixa. De fato, a manutenção de colégios em shutdown nada tem a ver com a saúde das crianças e suas famílias. Na verdade, esta é uma medida eleitoreira.

Nos Estados Unidos, observa-se situação similar. Uma pesquisa publicada no início do mês mostrou que não há correlação entre o aumento recente de casos e a decisão do fechamento. O que observou-se, na verdade, é que as cidades com aulas suspensas têm forte presença de sindicatos dos professores.

Nos estados de Nova York e da Califórnia, onde esses sindicatos são influentes, elas tendem a permanecer fechadas. Ao passo de que na Flórida, onde há sindicatos mais fracos, mais escolas abrem. Com efeito, a pesquisa identificou que distritos eleitorais com sindicalização obrigatória dos professores têm 14% menos chances de voltarem com as aulas.

De volta ao Brasil, o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo tenta a todo custo barrar o retorno. Inclusive, ele acionou a Justiça para impedir a volta, usando os pequenos quase como reféns, e com uma justificativa cientificamente dúbia.

Por isso, a única alternativa é contra-atacar a desinformação disfarçada de ciência. Afinal, toda a recente literatura aponta no caminho contrário. O Brasil, da mesma forma, anda na contramão de boa parte dos países que colocou os estudantes em primeiro lugar. Entre eles estão: Alemanha, Uruguai e Vietnã que reabriram seus sistemas educacionais com menos de 100 dias de paralisação. Por aqui, seguimos contando os dias…