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Como minha mãe abriu portas para a educação transformar minha vida

10 de maio de 2020 admin 0 Comments

Minha mãe sempre sonhou em estudar, mas nunca pôde realizar esse sonho. Isso porque a realidade cruel de um Brasil com ainda menos oportunidades do que temos hoje se impôs. Aos sete anos, ou ela ia para a escola, ou trabalhava como doméstica em troca de um prato de comida. Se não trabalhasse, não comia. Simples assim.

Mesmo com pouquíssimas oportunidades, ela entendia a importância da educação. Conseguiu fazer um curso técnico de auxiliar de enfermagem após seus vinte anos, e chegou a trabalhar em diversos hospitais. Quando minha avó ficou doente, ela voltou para Bragança para cuidar dela até seus últimos dias. Abriu mão de trabalhar com saúde, que adorava, e voltou a trabalhar como diarista. Essa foi a forma que ela encontrou de ajudar em casa.

Em meio a isso, na minha infância, não tínhamos dinheiro para quase nada além do estritamente necessário para a sobrevivência. Por isso, nenhuma quantia era pequena o bastante para que não valesse a pena economizar. Ou seja, era mais fácil economizar $ 5 do que ganhar $ 1. Mas a Dona Conceição me deu os melhores presentes que uma mãe pode dar ao filho: amor, carinho e uma educação. A última parte não foi simples, mas mudou completamente a minha vida, e a de meus irmãos.

Ela lutou muito para que isso acontecesse e nos proporcionou a educação que cumpriu o papel de transformar a vida minha e de meus irmãos. Então, quero deixar registrado aqui como essas histórias moldaram minha forma de enxergar a vida, a sociedade e a política.

Como minha mãe criou oportunidades da educação transformar minha vida

Quando eu estava para completar quatro anos de idade, minha mãe decidiu pegar um ônibus e ir até a maior escola particular de Bragança conversar com a irmã do meu pai. Esse dia certamente mudou minha vida por completo, e certamente sem ele não estaria onde estou hoje. Era uma escola de freiras, e minha tia, que também era freira, trabalhava lá.

Minha mãe pediu para que a escola aceitasse bolsas de estudos para nós. Éramos meu irmão mais velho, meu irmão gêmeo (sim, tenho um irmão gêmeo!) e eu. Ela estava decidida a abrir portas para que nós tivéssemos a educação que ela nunca teve.

Inicialmente, ela não conseguiu bolsas de estudos para nós três, apenas para dois. Então ela correu atrás de ajuda de familiares e amigos para manter os custos com material escolar, uniforme e alimentação. E, felizmente, mesmo com muitos apertos, foi o suficiente!

Mas a dona Conceição não parou por aí: ela fazia questão de sempre cobrar. Ela sempre acreditou. No fundo, ela sabia que aquela poderia ser a única oportunidade que meus irmãos e eu teríamos de estudar. Essa era a chance de dar os passos que ela, quando nova, não pôde.

E ela tinha toda a razão para “ficar de olho” em mim porque, ao contrário do meu irmão mais velho, eu tinha dificuldades, que me levaram a não ter tanto afinco para estudar em casa após as aulas. Assim como todas as crianças do bairro, preferia passar as tardes jogando bola nas ruas de Bragança. Ela quem não me deixou negligenciar os estudos até eu compreender a importância deles. Isso não significa que minha mãe não me me apoiava nos esportes. Contudo, ela entendia que as prioridades deveriam ser os estudos.

Minha mãe incentivou minha formação muito além da escola

A dona Conceição sempre cobrou os filhos para que tirássemos boas notas. Ela sabia que aquela porta que abriu junto ao colégio das freiras era uma “Bala de Prata”, a única oportunidade da nossa vida seguir uma trajetória diferente do que nossa origem pudesse proporcionar.

Mas ela a dona Conceição se preocupou com a nossa formação de maneira mais ampla, e nunca mediu esforços.

Católica, apenas não foi freira também porque não passou no processo de seleção na época. Ela sempre nos incentivou a participar de grupo de jovens na igreja. Foi assim que entrei para o Focolares, movimento que participei ativamente na adolescência. Ela sempre apoiou, nos ajudou a conseguir dinheiro para que pudéssemos participar e realizar o que era proposto. Até que aos 14 anos fui convidado e recebi apoio para participar de um encontro de jovens do mundo inteiro no Vaticano, mas isso é história para outra hora. Mas aquele grupo, as atividades e a viagem ampliaram meu olhar e visão sobre o mundo, tudo incentivado, apoiado e cobrado pela minha mãe.

Minha mãe também nos incentivava nos esportes. Participei de equipe de futsal em Bragança e também lutei judô. Tudo graças a ela, que sempre corria atrás de bolsas e ajuda porque não tínhamos condições de arcar com as mensalidades.

E, acreditem: eu jogava bem! Na rua meu apelido era “Romarinho”, e vocês devem imaginar o motivo.

Nos campeonatos em que disputava, ela sempre preparava na noite anterior um potinho com bisnaguinhas de presunto e queijo e suco para levarmos. As 65 medalhas de judô que tenho em casa foram minha resposta a tanta dedicação dela. 

Além da disciplina e outros ensinamentos que a luta me proporcionou, infelizmente descobri que ser um judoca é um skill importante em votações mais polêmicas da Alesp.

Minha mãe me incentiva, apoia e cobra até hoje

A viagem para o exterior ampliou meus horizontes, antes praticamente restritos apenas a cidade de Bragança. Compreendi a necessidade de aprender outras línguas, precisava aprender inglês. Partiu de mim correr atrás de uma escola para que tivéssemos essa oportunidade também. Meu irmão também foi atrás. Mas apenas conseguimos quando minha mãe comprou essa luta por nós e nos apoiou.

Essa educação que me permitiu ter bases para mais tarde conseguir uma bolsa de estudos para estudar Economia no Insper. Mas quando fui morar em São Paulo, minha mãe não fez menos em tentar me ajudar dentro de suas condições.

Eu não sabia cozinhar quase nada. Por isso, sempre quando visitava meus pais em Bragança, voltava para a capital carregando na mochila potinhos de comida congelada. Ela preparava-os com com carinho para que eu me alimentasse melhor.

A vida inteira minha mãe foi preocupada e me cobrando tudo: se estou dormindo bem, se estou me alimentando direito e se estou trabalhando bem. 

Dei algumas preocupações adicionais a ela quando abri mão do emprego estável no mercado financeiro para ir trabalhar na Jordânia: a dona Conceição achou que eu tinha pirado. Além disso, quando mais tarde decidi entrar na política e me candidatar, ela ficou ainda mais preocupada: teve certeza de que eu tinha pirado de vez.

Hoje as preocupações sobre isso diminuíram, e sei que ela se orgulha de mim. As aflições dela voltaram a ser mais como a de outras mães, mas ela me cobra sempre sobre como está indo meu trabalho e se estou cumprindo bem aquilo que me propus como projeto de vida. É uma fonte inesgotável de apoio, conselhos e inspiração.

A sorte de ter uma mãe fodona

Os esforços de minha mãe foram fundamentais para abrir portas e criar oportunidades para que a educação pudesse transformar minha vida. As aproveitar, mantê-las abertas e depois correr atrás de abrir novas portas foi mérito meu. Mas sei que minha vida foi diferente da vida da minha mãe e da maior parte de jovens com origem social semelhante a minha, o que ocorreu graças a primeira porta que minha mãe abriu: uma educação de qualidade na primeira infância.

A partir do momento em que todos os brasileiros tenham condições de oportunidades, o país cresce mais e melhor. Diferente de mim, estudar nunca foi uma opção para minha mãe e a pobreza lhe deixou marcas profundas. 

A persistência da dona Conceição é inspiradora, mas não podemos esperar que oportunidades de educação ao escuro apareçam para transformar a vida de todos os brasileiros. É preciso transformar o Brasil em um país com mais igualdade de oportunidades. Quantas gerações mais deixaremos ao acaso e dependentes da sorte de ter uma mãe fodona como a minha?